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sábado, 25 de fevereiro de 2012

Flagrante do cotidiano 4


           Aproveitando o embalo e pegando carona no tema da Campanha da Fraternidade deste ano, que é "Fraternidade e saúde pública", publico nesta postagem duas imagens que justificam o porquê da morosidade na nossa prestação de serviços em saúde pública para a população. Estas são pequenas amostras da "burrocracia" que os usuários do SUS enfrentam para ter acesso a alguns benefícios.


            A primeira folhinha é um formulário para declaração de que o paciente está sendo acompanhado no serviço por conta de determinado diagnóstico, a fim de requer uma pensão junto à Previdência Social. Até aí, tranquilo. Preencher essa declaração até que não é difícil. Ainda sim, mesmo com esse documento em mãos, não é certeza o paciente conseguir o benefício. Muitas vezes, eles voltam e pedem outra, quando o benefício é negado. Geralmente não adianta muita coisa, mas a gente oferece outra para mais uma tentativa.


            A segunda folha é um questionário com perguntas que devem ser respondidas na terceira e na quarta folhas, que contém quesitos vagos e redundantes. Toda essa papelada é emitida por um órgão público municipal e necessária para requerer passe livre que dê ao paciente direito de andar de ônibus sem pagar passagem. A quinta folha contém mais instruções a respeito do protocolo a ser seguido.




              Preencher esse tipo de documento é complicado, trabalhoso e toma muito tempo da consulta. O governo pensa que a gente não tem o que fazer. Nessas horas, lança mão da classe médica como saco de pancadas. Impingem-nos funções burrocráticas que vão além de nossas atribuições clínicas. E ainda nos pagam mal prá isso.

              Lamentavelmente, muitos pacientes, ou mesmo seus familiares, só nos procuram meramente com interesse nessa documentação acima exposta. Isto é desestimulante e desolador, mas não os culpo. A culpa é do modelo de governo atual, com suas políticas pseudoassistencialistas de inclusão social que praticamente estimulam a indigência. O governo parece não querer que as pessoas procurem um consultório médico para fazer outra coisa que não seja mendigar seus direitos e vivam apenas em função deles, perdendo o interesse em trabalhar para garantir o sustento. E o bode expiatório da vez é sempre o médico.

              Já vi situações assim, não apenas na residência médica, mas nos outros lugares também onde trabalhei. Por vezes, em postos de saúde, vi pessoas que nunca tinha visto antes, que talvez nem fizessem acompanhamento médico regular em canto algum, chegando lá e querendo me botar contra a parede por causa de papéis como os das fotos acima. O ideal é que sejam fornecidos por especialistas que acompanham esses pacientes em serviços médicos especializados de referência, e não na atenção primária.

              Se falo estas coisas, não é porque eu seja pão-duro, até porque eu não ia ter ônus financeiro, ao preencher aquelas declarações. Não tenho o coração duro de Edward Hyde, como você deve ter pensado. Falarei sobre ele em outra oportunidade, conforme o combinado. A questão é que eu não concordo que o consultório médico seja utilizado como um balcão de negócios, e esse tipo de causa, previdenciária ou pericial, deveria ser tratado em outro ambiente. Na verdade uma simples declaração em papel timbrado, informando que o paciente faz acompanhamento em nosso consultório por um determinado motivo, já deveria ser o suficiente para resolver tudo.

              O problema é que, no serviço público, existe muita gente que não sabe pensar, muita gente que adora complicar a vida de todo mundo, haja vista que não é seu lado que está sendo prejudicado, inventando mil e um obstáculos para aqueles que desejam obter um produto, um serviço ou um direito junto a um órgão público, como o INSS ou a ETTUFOR, por exemplo. Por que ninguém toma a iniciativa de otimizar a prestação de serviços ao público em repartições como as que citei, por exemplo??? Quando será que eles vão evoluir e ligar o botão do "descomplik", como dizia o comercial de uma loja de produtos de informática??? Lembre-se de que, este ano, teremos eleições. Vamos tentar virar esse jogo.

              Você não tem ideia das responsabilidades legal e ética que um médico assume, ao preencher um documento, carimbá-lo e assiná-lo. Você deve ter ouvido falar que, há algumas semanas, um adolescente que jogava na categoria de base do Vasco da Gama morreu, durante um treino, numa escolinha de futebol mantida pelo clube, numa cidade do interior de Minas Gerais. Pois bem, a imprensa começou a lançar dardos não apenas contra o clube, mas também contra o médico que examinou o jovem e lhe deu um atestado médico declarando que ele estava apto à prática desse tipo de atividade física. Espero que esse colega médico tenha feito o devido registro por escrito de seu metiê em um prontuário, para poder se resguardar legalmente e provar que fez os devidos procedimentos médicos em busca de algo que incapacitasse o paciente ao exercício físico ou pusesse sua vida em risco.

              Quando chega alguem para mim, no consultório de clínica geral, me pedindo declaração para frequentar uma academia, é o que sempre faço: um registro minucioso da consulta, além de solicitar exames de sangue com hemograma e bioquímica, além de eletrocardiograma. Isto é o mínimo. Só depois de combinar todos os resultados é que eu concedo a declaração. Para ser franco, só há um jeito de obter a certeza mais absoluta de que o paciente não corre risco algum e que está apto à atividades físicas esportivas: é ele fazendo. Até lá, tudo pode acontecer.

              Por outro lado, também na clínica geral ou no PSF, em qualquer época do ano, às vezes me procuram adolescentes querendo atestados para serem dispensados das aulas de educação física em seus colégios. Se eu não vir algo que os incapacite, eu não dou. Mas, se ele e/ou seus pais insistirem que há uma doença incapacitante na jogada, eu os encaminho a um especialista para que ele ache essa tal "doença incapacitante" e prove para o colégio que ela existe. Não sou o mais indicado para entrar nessa briga. Tenho uma reputação a zelar e não posso botar meu nome na reta por qualquer coisa. Na minha profissão, todo cuidado é pouco. Por vezes, até nossos carimbos são falsificados por criminosos.
  


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