domingo, 15 de janeiro de 2012

Amolando o machado






                      A história a seguir foi contada, há alguns anos, por um consultor de recursos humanos, ao conceder entrevista em uma emissora de rádio, explicando como um candidato deve se portar, em uma entrevista de emprego:



Reza a lenda que, certo dia, um aprendiz resolveu desafiar seu mestre. “Ele já tá muito velho, duvido que ainda consiga fazer alguma coisa melhor que eu”, pensou o jovem. Então o aprendiz procurou o mestre e o desafiou para ver quem cortava mais lenhas das árvores de uma floresta. Serenamente, o mestre aceitou o desafio.
No local e hora combinados, iniciou-se a disputa. O mancebo começou a trabalhar afobado, enquanto o mestre fazia seu trabalho de cortar a lenha lentamente. De vez em quando, o aprendiz parava seu trabalho e ia observar o desempenho do mestre. Ele via que o ancião estava sempre sentado, manipulando seu machado, como se estivesse a brincar com ele. “É hoje que eu ganho esse velho. Ele já tá cansado”.

No final da disputa, o garoto já estava cansado, mas sorridente e confiante na vitória, embora estranhasse a calma do mestre, que não parecia cansado. No entanto, quando o árbitro convocado por ambos deu a vitória ao mestre, o rapaz protestou:
- “Ele só pode ter trapasseado. Alguem cortou a lenha prá ele, porque toda vez que eu ia olhar, ele tava lá sentado e sem trabalhar”.
- “É porque, quando estava sentado, eu estava amolando meu machado. Quando eu me levantava, então eu conseguia cortar mais madeira com menos esforço, porque meu machado estava sempre afiado. Você não parou prá afiar o seu nenhuma vez. Parou só prá ver o que eu estava fazendo e acabou sempre se cansando mais depressa, porque seu machado logo perdeu o fio da navalha”.

                       Lembrei-me dessa história, por esses dias, enquanto estava pensando com meus botões em minha situação de vida atual. O que o entrevistado quis dizer com a história é que todo profissional deve periodicamente fazer uma pausa profilática e restauradora do seu trabalho, a fim de poder descansar e se aperfeiçoar no seu ofício. Todo profissional deve reservar um tempo para se reciclar, a fim de que seu trabalho não fique repetitivo, desgastante e sem sentido. Eu diria mais. Diria que todo profissional deve se afastar de seu trabalho periodicamente para cuidar melhor de si, especialmente no tocante à saúde. Participações periódicas em congressos, simpósios, conferências e jornadas, por exemplo, seriam ótimas oportunidades para, digamos que relaxar e alongar os músculos, bem como amolar o machado.

                       Estou trabalhando quase que ininterruptamente, há um ano, como médico, conciliando minhas tarefas da residência médica com meus trabalhos extras, como, por exemplo, atendendo em um ambulatório de clínica geral de um plano de saúde e, às vezes, atendendo em algum centro de saúde da família (CSF), vulgo posto de saúde. Isto chega a ser, por vezes, desgastante e desestimulante para mim, porque, por exemplo, nos ambulatórios da residência médica, já é de se esperar que muitos pacientes sejam pouco cooperativos. O que é inadmissível é que os familiares daqueles pacientes sejam menos cooperativos ainda. Muitos casos têm prognóstico ruim, quando não há interesse das famílias em cuidar dos pacientes adequadamente e quando esses interesses então canalizados apenas para ganhos secundários. Já no ambulatório de clínica geral e no posto de saúde, muitos pacientes chegam com a ideia ingênua de que resolver-se-ão todos os problemas de suas vidas em uma só consulta, que, por vezes, acaba se prolongando demais, se eles referem queixas demais ou se pedem para fazer exames demais, sem indicações clínicas.

                        Muitas vezes me sinto angustiado e impotente, diante de muitos daqueles pacientes, tanto no serviço público como no privado, por não saber mais como conduzir-lhes os casos. Essas são apenas algumas das mazelas que enfrento, no meu ofício taumaturgo, e tomei o cuidado de fazer este desabafo com toda a discrição possível, para não violar o Código de Ética Médica. Você há de convir que, se há alguém sendo exposto, nesta postagem, este alguém é apenas o seu autor, que está se abrindo e expondo, inclusive, as vísceras da alma.

                         Em pouco mais de um ano de formado, esta é a segunda vez que eu posso estar chegando a um ponto da caminhada em que eu sinto que, se eu der mais um passo, poderei bater num poste, num muro, ou mesmo atropelar alguém, enfim, cometer um erro crasso e causar um desastre. Medo de tomar uma atitude sem pensar bem, por não estar com a mente bem clara e por não estar enxergando bem o que vem adiante. Tenho vivido minha vida de maneira muito corrida, sempre em função do trabalho, trabalhando muito e ganhando pouco. Sempre ando com a sensação de que deixei algo para trás, me perguntando se saboreei adequadamente cada momento da vida, cada contato com cada pessoa com quem eu falei, me perguntando se não deixei más impressões em quem me viu passar, se não machuquei algo ou alguém, durante minha passagem, enfim, sempre procurando repassar as horas mais recentes do dia em busca de algo. Tenho vontade de parar e fazer com que o mundo pare comigo, pelo menos por alguns minutos, para que eu possa me sentar, respirar, repassar minha vida e planejar meu futuro, dentro de minhas possibilidades.

                          Apesar de tudo, não me arrependi de ter trabalhado nos lugares por onde passei, tampouco pretendo desistir, pois, de certa forma, ajudei muita gente a dormir bem, durante algumas noites, aliviando-lhes as dores do corpo e da alma, ajudei muita gente a viver com alguma qualidade de vida, enfim, ajudei muita gente a ser feliz, grosso modo.

                          Tenho algumas ideias sobre o que fazer para tentar diminuir meu estresse e aumentar meu rendimento. Para começar, já obtive duas vitórias importantes, nos últimos dois meses: voltei a praticar atividades físicas regulares, em uma academia, fazendo musculação, e consegui tempo para voltar a cuidar de minha própria saúde, fazendo algumas consultas e exames. Assim, espero poder perder logo esse garrafão de água mineral de 20 kg que carrego dentro de mim, há três anos. Os próximos passos serão: continuar me organizando para ler sistematicamente a pilha de livros que está à minha espera, no pé do meu birô, criando, assim, uma rotina de estudos (já aderi à campanha “Menos Face, mais book”) e reduzir minha carga horária de trabalho para que, no tempo livre, eu não fique me culpando por estar deixando de ganhar dinheiro, mas que eu aproveite melhor esse tempo livre, que eu invista nele, com mais estudos, mais exercícios físicos e mais lazer, para que as minhas horas de trabalho sejam mais frutíferas. Assim, estarei efetivamente amolando meu machado, como estou fazendo agora, nesta tarde de domingo, enquanto escrevo, para que, quando eu retornar amanhã à selva de pedra, eu corte mais lenha em menos tempo.



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