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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

O preço do amanhã


                            Sabe aqueles filmes que fazem você pensar, chegando a passar dias, semanas ou meses pensando neles, depois de vê-los, que deixam você com uma pulga atrás da orelha e que você faz votos para que os produtores criem uma sequência para ele??? Pois bem, de acordo com minha humilde opinião, "O preço do amanhã" é um desses longa metragens capazes de causar esse tipo de efeito. Depois que assisti a ele, num canal de TV por assinatura, passei uma semana me coçando para escrever esta postagem.

                            Logo no começo, notei que havia algo errado. Uma garota estava na cozinha lavando a louça e chega um cara aparentemente da mesma idade dela chamando-a de mãe. Limpei as lentes de meus óculos, passei cotonetes nos ouvidos e aumentei o volume para ter certeza do que estava ouvindo e vendo. 

                            Trata-se de um filme de ficção científica, cujo enredo se passa em um futuro relativamente distante, no qual a ciência consegue estacionar geneticamente o processo de envelhecimento de todo indivíduo que atinge os vinte e cinco anos de idade. Todo ser humano nasce geneticamente programado para envelhecer até essa idade. Teoricamente, todos os humanos seriam imortais e só lhes seria possível morrer de causas externas, haja vista que eles parariam de envelhecer aos 25 e não mais contrairiam doenças. O mundo tornar-se-ia povoado exclusivamente por pessoas jovens, pelo menos por fora.

                            Entretanto, esse progresso trouxe uma contrapartida: pessoas são geradas como se fossem robôs. Todas são criadas com um relógio fluorescente sob a pele do braço esquerdo que marca o tempo de vida restante. Todas nascem programadas para viver até os vinte e cinco anos. Quem quiser viver além disso, tem de trabalhar para conseguir seu sustento e para prolongar seu tempo de vida, porque alguém teve a "brilhante" ideia de substituir o papel-moeda por unidades de tempo como moeda corrente. Uma ideia que tomou corpo mundo afora. Daí em diante, salários são pagos em unidades de tempo, e as pessoas, quando adquirem produtos e serviços, como roupas e alimentos, por exemplo, pagam literalmente com partes dos tempos de suas vidas que lhe restam, e o "reloginho" do braço esquerdo funciona como se fosse um cartão de crédito. Nunca as vidas das pessoas estiveram tão atreladas às posses de bens materiais como estão agora, naquela época futura.

                            Esse filme nos traz uma metáfora de nosso capitalismo. Nunca antes na história, aquele adágio popular que diz "Tempo é dinheiro" fez tanto sentido. Naquela época, as pessoas têm de produzir tempo para gerar riquezas para terceiros e migalhas para si, e sacrificar literalmente parte daquele tempo que teoricamente lhes pertencem para conseguirem alguma coisa em troca.

                            Eu vou ainda mais longe. Quando entrei na residência médica, um de meus orientadores disse: "Tempo é vida". Ele foi feliz em sua frase, porque, em todos os serviços de saúde, teoricamente falando, o objetivo primordial não é a geração de riquezas, mas a geração de qualidade de vida. O modo como administramos o tempo que empregamos nesse ofício pode fazer a diferença.

                            No tocante ao filme supracitado, o tempo faz a função do dinheiro, que, por sua vez, faz a diferença entre a vida e a morte. Então, para eles, tempo é dinheiro e vida. Se você tiver oportunidade de assistir ao filme, verá que as transações comerciais e as operações de transferências monetárias parecem mais transfusões de sangue. Você pode receber ou oferecer dinheiro ao seu amigo segurando a mão esquerda dele com sua mão esquerda e usando o poder da mente para estabelecer o fluxo de tempo entre os dois corpos. Mais uma vez se mostra evidente a metáfora entre tempo, dinheiro, sangue e vida.

                            Vive-se numa sociedade em que as pessoas parecem não ser mais pessoas, parecem ter sido transformadas em robôs, parecem não ter mais sangue em seus vasos e são programadas para viver um determinado tempo, à revelia da vontade de Deus, do qual parecem ter-se esquecido, parecem ter mordido a maçã proibida do Éden, abrindo uma caixa de Pandora e atraindo para elas uma maldição, a de se verem obrigadas a buscar constantemente unidades de tempo em todas as fontes possíveis, a fim de manter os status de juventude e de imortalidade. Seria como se estivessem sempre subornando alguém, com suas mãos-de-obra, para ganharem tempo e procrastinarem os encontros com suas inevitáveis mortes.
                     

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