O Profeta diz a todos: "eu vos trago a verdade", enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: "eu te trago a minha verdade."

Mario Quintana

Editorial

Embora o Brasil não esteja em uma boa fase de sua história e não esteja sendo bem administrado, retroceder ao passado, principalmente àquele passado mais remoto e sem resultados satisfatórios para a coletividade, não é a solução.

Uma geração acreditou que, quando a oposição chegasse ao poder, finalmente, sentir-se-ia representada. Votou em um candidato à presidente que caiu e se levantou, algumas vezes, mas agora já não sabe mais em quem confiar, porque não há mais representações legítimas, para os trabalhadores e os estudantes. Existem apenas partidos para representar seus próprios interesses ou defender os privilégios de seus aliados diretos.

Dar vazão às mentes e às vozes que querem questionar e repensar o Brasil de uma maneira distinta, objetiva e imparcial. É para isto que estamos aqui.

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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Pensamentos dadaístas 23


                       Semana passada, foram divulgadas algumas matérias sobre o patrimônio material da Igreja Católica, em Fortaleza e no mundo. Aqui, noticiaram que um colégio católico foi demolido para a construção de um condomínio. Com relação a isto, questionou-se o porquê de alguns imóveis da Igreja estarem sendo vendidos, supostamente à revelia dos fiéis, e o porquê de o patrimônio da Igreja, patrimônio levantado com o apoio e o trabalho da comunidade, estar, aparentemente, se dissolvendo.

                       Noticiaram também que boa parte do capital do Vaticano estaria investida no mercado imobiliário europeu, sendo proprietário de alguns dos endereços mais visados de Londres, por exemplo, desde que o Vaticano teria recebido uma contribuição do governo italiano, no final dos anos de 1920.

                       Quanto ao primeiro questionamento, não sou a pessoa mais habilitada a dar uma resposta, mas, quanto à segunda manchete, pergunta-se: e daí? Por acaso, é pecado o cerne da Igreja, como um Estado-Nação, ter seu erário público e investi-lo adequadamente??? O Vaticano é que está certo, certíssimo. Se for por isso, algumas igrejas evangélicas também acumulam fortunas, de maneiras questionáveis, e ninguém reclama. Além disso, a riqueza maior da Igreja Católica Apostólica Romana é outra, bem diferente.


                       Quando Zeca Pagodinho percorreu as ruas da cidade fluminense de Xerem, num quadriciclo, oferecendo ajuda às pessoas que foram afetadas pelas enchentes e suas consequências, ele ganhou status de herói, nas redes sociais. Aqueles que o conhecem pessoalmente dizem que ele sempre foi o tipo de pessoa que estende a mão a quem precisa e que ele não tomou aquela atitude para aparecer.


                       Seja como for, sua atitude foi bem mais nobre que a do governador do Ceará, Cid Gomes, o mesmo que autorizou o Estado a contratar Ivete Sangalo para a inauguração de um hospital. Nas eleições municipais do ano passado, Sua Excelência tirou licença do cargo e percorreu Fortaleza em uma motoneta, fazendo campanha em favor de seu candidato à prefeito, Roberto Cláudio, que acabou vencendo. Tudo bem que talvez, com aquela atitude, ele quisesse se aproximar do povo e mostrar simpatia, mas o seu maior pecado foi pilotar uma motoneta sem usar capacete, dando um mau exemplo.

                       Falando nisso, por esses dias, nosso governador foi alvo de críticas um tanto ácidas, por parte do jornalista Ricardo Boechat, âncora de um telejornal da Rede Bandeirantes, em um programa de rádio. Algumas coisas que Boechat falou podem estar certas, mas ele pegou pesado, ao chamar o governador de "canalha". Se os jornalistas, em geral, são "cerimoniosos", como ele declarou, vendo a surpresa deles, quando empregou a palavra "canalha", é porque precisam expor a verdade com parcimônia, respeito e educação, pois não se sabe como os citados pela verdade vão reagir.


                       Na noite de terça-feira, dia 29, a Petrobras anunciou aumento dos preços dos combustíveisnas refinarias, a partir da zero hora desta quarta-feira, 30. Este aumento foi anunciado na calada da noite e, em princípio, não deveria ser repassado ao consumidor. Entretanto, há rumores de que muitos donos de postos de gasolina, ao saberem da notícia, teriam bancado os espertos e não teriam esperado para trazer os reajustes às bombas. Como se não bastasse, muitos deles, pelo menos aqui, já estão se recusando a aceitar pagamentos com cartões de crédito. Não entendo como é que negócios assim conseguem se manter de pé, sem ir à falência.


                    Não podia encerrar esta postagem, sem, ao menos, mencionar a tragédia que aconteceu, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, no último final de semana, quando mais de duzentas vidas foram ceifadas por um incêndio, em uma boate. Este foi considerado um dos maiores incêndios em ambientes coletivos com muitas mortes, na história do nosso país, e este gerou repercussão internacional. Não há muito o que dizer. O que teria a oferecer seria meu silêncio, mas prefiro não ficar calado.

                    Tenho a dizer que devemos sempre agradecer à Deus, quando não estamos nos lugares errados, nem nos momentos errados, haja vista que episódios como esse podem atingir qualquer um de nós, em qualquer lugar. São centenas de vidas interrompidas que, certamente, ainda tinham muito a oferecer ao mundo. Eram apenas jovens que queriam e que tinham o direito de se divertir, porque o cotidiano já é cinzento, árido e amargo demais. Um final de semana com músicas e bebidas é um oásis no deserto. Eles não estavam errados em estar naquela boate, quando poderiam estar em casa. Eles apenas tiveram um encontro inesperado, para o qual não estavam preparados, assim como também não estavam preparados para a despedida. Eles tinham a esperança de, logo mais, retornarem aos seios de suas famílias e aos seus lares e de retomarem suas atividades costumeiras, na segunda-feira.

                    Não é hora de ficar apontando o dedo, uns para os outros. Devemos, sim, tomar providências, a fim de evitar que situações semelhantes aconteçam de novo, mas devemos, acima de tudo, respeitar o luto dos que ficaram e cuidar dos sobreviventes. Ninguém está preparado para essas coisas. É tanto que, infelizmente, elas precisam acontecer, para que alguém acorde e tome alguma atitude, a fim de evitar que algo assim venha a se repetir. O poder público, em diversas cidades, está com as barbas de molho.

                    Dizem que um dos integrantes da banda que estava tocando na boate teria acendido um fogo de artifício, provocando o incêndio. Não é querendo julgar, mas todos sabemos que não é de bom alvitre acender fogos de artifício em ambientes fechados. Não há novidade nisto.

                    Encerramos com um texto escrito pelo poeta gaúcho Fabrício Carpinejar, especialmente para este momento. Um texto que está sendo amplamente divulgado na Rede Mundial de Computadores.

Morri em Santa Maria hoje. Quem não morreu? Morri na Rua dos Andradas, 1925. Numa ladeira encrespada de fumaça. A fumaça nunca foi tão negra no Rio Grande do Sul. Nunca uma nuvem foi tão nefasta. Nem as tempestades mais mórbidas e elétricas desejam sua companhia. Seguirá sozinha, avulsa, página arrancada de um mapa. A fumaça corrompeu o céu para sempre. O azul é cinza, anoitecemos em 27 de janeiro de 2013. As chamas se acalmaram às 5h30, mas a morte nunca mais será controlada. Morri porque tenho uma filha adolescente que demora a voltar para casa. Morri porque já entrei em uma boate pensando como sairia dali em caso de incêndio. Morri porque prefiro ficar perto do palco para ouvir melhor a banda. Morri porque já confundi a porta de banheiro com a de emergência. Morri porque jamais o fogo pede desculpas quando passa. Morri porque já fui de algum jeito todos que morreram. Morri sufocado de excesso de morte; como acordar de novo? O prédio não aterrissou da manhã, como um avião desgovernado na pista. A saída era uma só e o medo vinha de todos os lados. Os adolescentes não vão acordar na hora do almoço. Não vão se lembrar de nada. Ou entender como se distanciaram de repente do futuro. Mais de duzentos e cinquenta jovens sem o último beijo da mãe, do pai, dos irmãos. Os telefones ainda tocam no peito das vítimas estendidas no Ginásio Municipal. As famílias ainda procuram suas crianças. As crianças universitárias estão eternamente no silencioso. Ninguém tem coragem de atender e avisar o que aconteceu.


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